Estupro: meia hora para desistir de uma vida promissora

Estupro: meia hora para desistir de uma vida promissora
 

Tinha apenas 19 anos naquela época, quando Ella trabalhava num shopping em SP e no caminho de volta para casa, descia pra pegar um segundo ônibus, que costumava dar uma volta num certo lugar antes de passar no ponto de costume. Como ela havia perdido esse ônibus, e sabia que ele daria a volta, correu num ponto a frente para espera-lo então.

Nesse dia Ella tinha saído um pouco mais tarde do trabalho e esperava pelo coletivo no ponto praticamente sem iluminação. “Eu estava com uma sensação muito ruim, a gente não tem o costume de dar muito importância para esse tipo de pensamento, mas digo que é muito importante sim prestar atenção nisso. É como se fossem relâmpagos que passam muito rápido alertando alguma coisa que está para acontecer, um mal muito grande.”

Viu um carro parar, era um carro muito velho… Ella diz que era um Passate e que quando parou, abaixou o farol e me mandou-a entrar. Ella resistiu e falou que não, que não iria entrar que não entraria ali não. Quando Elle encostou a arma na minha costela, na altura da minha cintura e disse:

“-Não… Vai, ah vai, você vai entrar e vai ficar quietinha!!!”

“Meu Deus, eu não tinha o que fazer. Não tinha ninguém na rua… eu só pude obedecer, né! Ele era um conhecido da escola na época queria me namorar… mais pra frente conto essa parte toda.”

Elle disse que me levaria para casa. Mas o mentiroso, no meio do percurso… Adivinha? Desviou o caminho, que apesar de mais longo também daria para chegar na minha casa, então procurei manter a calma. Mas era um caminho muito, mas muito abandonado mesmo. A rua era de terra, não tinha nenhuma iluminação, era realmente muito escuro e naquela rua só havia chácaras. No momento em que Elle parou o carro só disse que o veículo apresentava problemas e que mexeria no motor enquanto a fazia apertar um botão que nem se lembra qual. “Nesse momento o medo e o pavor tomaram conta de mim, como se eu já imaginasse que tudo fosse acontecer”.

Ella diz que nessas horas parece que você já sabe tudo, pelo medo que você está passando e sabe o que pode vir te pegar depois. “É coisa que já está na mão de Deus e ali, já estava mesmo nas mãos de Deus, eu sentia. Dá pra gente ver as energias que a pessoa está no semblante… revelam pra você tudo o que ela é capaz de fazer nessa hora. Eu já conhecia o cara, da escola mesmo… da época que eu estudava”. Elle era uma pessoa muito inteligente, e dai vem o perigo! Até porque ele era uma pessoa que sabia conversar todos os tipos de assuntos…

“Todos os dias aparecia na escola como amigo meu, e essa situação começou a me incomodar porque ele falava para as pessoas que era meu namorado, uma vez que não era. Para as pessoas não se aproximarem de mim!”

Foi quando, na época, Ella havia falado aos meus irmãos, que devem ter dado um ‘chega pra lá’ nele. Só que por ter uma família tradicional não poderia revelar jamais um estupro. “Mas Elle falou pra mim que um dia voltaria e que eu pagaria por ter falado aos meus irmãos o que ele fazia porque ele acreditava que não fazia nada de mais, prometeu que um dia eu seria dele”.

Passando essa época Ella tinha 17 anos, aos 19 para 20, Elle reapareceu pra mudar as suas histórias. “Quando o cara surgiu naquela noite no ponto de ônibus, ele estava com o semblante monstruoso. De uma pessoa que estava provavelmente possuído, drogado… sei lá o que!”

E sensações ruins após imaginações de como e se Ella chegaria em sua casa. Confessa ainda que era sim  namoradeira, mas nunca havia se entregado a ninguém. Ella era virgem, nunca tinha ido para a cama com outra pessoa! “Até porque, pra mim o momento de uma entrega, teria que ser um momento especial. Então eu queria sentir uma coisa muito forte e especial para ter a minha primeira vez. Sabe, eu, não que seja uma pessoa que critica com quem pensa diferente de mim, mas pra mim tinha que ser assim, especial, como eu imaginava.”

“Então a minha primeira transa foi num estupro tão violento, de quebrar os dentes!”

Chorando muito conta que o vagabundo a arrancou do carro com brutalidade e a jogou em cima do capô daquela lata velha. Tentou beija-la de qualquer jeito sob qualquer custa.

“Tentou me beijar, resisti! Ele me pegava com muita força, com muita violência, me apertava e me arrancava os seios com as mãos. Era a sensação que eu tinha de tanto que ele me espremia. Eu nesse momento suplicava por socorro, viesse de onde fosse.. mas não havia ninguém… nem lua naquele dia não tinha pra eu poder sentir a luz de alguma coisa ali… e me jogava em cima do capô do carro e arrancava as minhas roupas com estupidez, me dando socos e pontapés!”

Elle deu muitos socos, esmurrou seu rosto a moça já nem sentia mais dores, nessa altura do campeonato, com dentes quebrados e anestesiada de tanta dor, se viu numa situação muito, mas muito critica mesmo… Já sem forças foi violentada.

“Transou comigo naquele mato, naquela escuridão desesperadora… que eu não sabia se era quente ou frio… nem sequer lembrava onde estava e quem eu era, sentia muito medo e dor”.

“Foi o momento que eu pedi para morrer de tanta dor, por tanta violência descabida. E, de uma coisa eu tenho certeza: Não sei o que é perder a virgindade! Uns dizem que é rápido, outros que é demorado… dizem tantas coisas boas relacionada a sexo e como perder a virgindade, mas pra mim, o início de uma vida sexual foi o maior trauma da minha vida. Esse privilégio eu não vou poder dizer nunca. Não sei como é não sangrar na primeira vez!”

O que Ella sentiu foram muitas dores, nas costas, por dentro… como se tudo estivesse estourado, arrebentado. Sentia dores profundas que alcançavam e alcançam sua alma até hoje. Dores que foram piores que dor de parto, e diz isso porque hoje, sabe o que é ser mãe. Então… com certeza doeu muito mais a violência que sofreu do que as dores físicas, afirma. “Minha virgindade foi arrancada de mim com violência e no pior dos atos, foi com muita covardia. Eu fui jogada no chão, e ele ia me matar!”

Ella diz que conseguiu se libertar com a força de Deus mesmo porque era um lugar deserto e muito escuro. Não passava ninguém durante o dia nem durante a semana, só mesmo de sábado e domingo, até porque eram chácaras… e tudo aconteceu numa quarta-feira. Foi tanta, mas tanta violência que essa moça sofreu porque Elle a espancou gravemente, bateu muito mesmo a ponto dela sentir as pernas molharem. “Eu estava toda ensanguentada. Minhas pernas estavam muito sujas, literalmente ensopadas de sangue… era muito sangue… nossa! Dores insuportáveis, dai que eu notei, estava sangrando inteira. Passava a língua na minha boca e não sentia meus dentes. Meu rosto, nossa… já estava anestesiado, um olho fechado até por conta das agressões… nossa, não consigo nem lembrar. Isso tudo ainda me machuca, mesmo depois de tantos anos“.

Ella é muito forte hoje para poder contar isso detalhadamente e não ter mais pesadelos. Diz que ficou em estado de choque, com problemas realmente psicológicos. E que sabia que ele a mataria. “Eu sabia. Ele ia me matar, ele não tinha nada a perder… eu jogada na calçada ali… só pedindo pra Deus me guiar, afinal, porque ele me deixaria ali? Ai, simplesmente eu olhei para o final da rua e vi um farol ao longe… aumentando e se aproximando de mim. E o vagabundo, viu o farol também e percebeu que se ele acabasse comigo ali, teria testemunha. Ele pensou em me matar e fugir, mas como não teria tempo pra isso, ele simplesmente me largou ali jogada, ensanguentada e foi-se embora”.

Quando então um carro passou e viu que Ella estava se mexendo, parou e desceu um casal. “Não sei até hoje se eram casados ou namorados, mas eles em maior desespero perguntavam para mim o que havia acontecido. E não continha mais voz, só conseguia sussurrar e implorar pra sair dali aos prantos… sabe, enquanto isso, passava a língua nos meus dentes e sentia como estilhaço de louça quebrada, eu não tinha realmente mais forças pra falar diante de tanta crueldade desnecessária”.

A moça confirma que sentia realmente dores muito, muito fortes por dentro, mas a maior dor foi a dor da sua alma, da humilhação que havia passado. “Essa sim, sem dúvida, foi a que mais doeu porque ainda carrego isso e sei que vou carregar, faz parte da minha história”. Ainda que eles tenham perguntado o que aconteceu e se prontificaram em ajudá-la, o casal ficou com medo e disseram que a levariam ao hospital mais próximo… mas Ella disse que não, que tudo o que ela queria era sua cama, sua casa. “Para tranquiliza-los prometi que no dia seguinte iria e que liguei para a minha irmã e pedi para que ela me esperasse. Então após esses se certificarem que eu ficaria bem, contaram o que houve e foram embora. Daí que no dia seguinte eu contei para o meu pai e disse que havia sido pega por uma gangue bem conhecida no bairro onde eu moro e que fizeram o que fizeram comigo”.

“Sabe, eu guardo esse segredo até hoje, com 37 anos, casada e com dois filhos. Um segredo que ficou entre minha mãe, falecida, duas irmãs e eu, da família enorme que vivia no mesmo quintal”.

Mas o pior ainda estava apor vir, começou outro pesadelo… A GRAVIDEZ!!!

Inexperiente, o tempo foi passando e o pior por vir porque Ella não só perdeu a virgindade num ato violento como engravidou também. E confessa que foi muito difícil carregar esse peso que carregou. Ela diz que não dormia mais com tantos pesadelos, acordava sendo sufocada por instantes… isso era o tempo todo, acordava completamente nua de madrugada. Na mesma semana ainda foi ao médico e ele disse que sabia o que havia acontecido, mas que denunciar caberia somente à vitima. Sem experiência a moça pensava que seria culpada pelo acontecido. Pensou muito no seu pai, no nome da sua família que era muito conhecida e acabou não denunciando. “Meu pai, sempre foi um exemplo de homem e era, de certa forma meio antiquado, machista e queria levar a filha para o altar. Só que eu não tinha imaginado que o mal só havia começado, porque eu não sabia que estava grávida”.

Cinco irmãos homens mais quatro irmãs mulheres, uma família polêmica. Sendo a mais nova, praticamente saindo da adolescência disse ter sentimentos… como eu diria, uma mistura de desespero com revolta. “Eu acordava e escutava criança chorando, eu não dormia mais. Quando eu percebi que pudesse estar grávida, até porque eu não conhecia meu corpo foi quando eu acordei de madrugada sentindo vontade de comer ovo cozido. Nesse dia eu já fiquei profundamente preocupada, e minha menstruação não descia, não descia nunca… e, no desespero eu procurei tudo que foi droga. Toda porcaria lançada no mercado eu tomei pra abortar a criança. Pra você ter uma ideia tomei até chá de maconha por conta da ansiedade”.

No fundo a sua revolta e inexperiência fizeram dela uma pessoa frágil.  “As pessoas podem até me julgar pelo que fiz, mas quem sabe mesmo da minha vida é Deus. Digo hoje, se eu pudesse evitar o aborto, eu o faria. A criança não tinha nada a ver com o que me aconteceu. Era uma decisão que cabia somente a mim e diante de tantos danos e maldades não consegui pensar, foi turbulento e muito difícil”.

Para Ella a criança seria um fruto divino hoje, ela diz que seu medo era de ter arriscado lá atrás, diz que talvez não estivesse preparada para encarar toda a turbulência que seria ter aquele bebê, mas que o amaria com certeza, pois teria vindo dela… era parte dela do que ela tem de bom e de melhor também estaria ali presente, seria isso que floresceria nessa criança.

“O tempo foi passando, ao mesmo tempo que sentia amor, estava vomitando, passando muito mal. A minha decisão já havia sido feita, e eu estava vivendo um inferno psicológico intenso… como se aquele feto fosse a causa das minhas dores pois ao mesmo tempo que eu amava, não poderia jamais assumi-lo. Quando eu tomava banho e olhava para a minha barriga, imaginava que eu era uma assassina. Aquele bebezinho queria mamar no meu seio, queria amar e se sentir amado como toda criança. Mas também não era justo eu fazer todos passarem aquele transtorno comigo, me fazer de vítima e tal, apesar de ter sido. Eu simplesmente não tinha a experiência que tenho hoje”.

Ella, desesperada, não podia ver a Xuxa, musicas e programas infantis, ficava desesperada. Dai conheceu uma enfermeira, auxiliar de enfermagem… não sabe ao certo que indicou o cara que fez o remédio abortivo e disse que pagou caro, muito caro mesmo e em dinheiro porque ele dizia que não mexia mais com isso. “O cara disse que faria só pra mim, que ele não mexia mais com isso… mas era mentira, ele era um charlatão, um vigarista! Ai eu fiz a aplicação por baixo e ele disse que eu só veria um amontoado de sangue, mas ele mentiu porque eu vi meu bebezinho na privada…” (ela chora muito, desesperadamente nessa parte).

Disse que enquanto os seus pais assistiam TV na sala, e ela teve contrações fortíssimas que pareciam rasga-la por dentro. Chegou a rasgar o colhão com os dentes de tanta dor. Ela diz que teve dois partos apenas porque as dores que sentiu naquele momento do aborto foram muito mais fortes, mesmo tendo seus dois filhos de parto normal. “Tinha uma imagem da Virgem Maria no meu quarto que nesse momento eu olhei a ela e clamei com todas as minhas forças. Disse que se fosse pra ela me levar que me levasse naquele momento, eu já não aguentava mais de tanta dor! E nesse momento que eu tive o alívio e notei que abortei meu filho. Quando olhei, vi aquele bebezinho já formadinho e nesse momento foi mais um choque violento que eu diria que mudou mais uma vez a minha vida. Naquele momento eu me arrependi de ter tirado meu neném, me causou culpa, arrependimento… eu chorava demais! Minha mãe foi me levar um cafezinho na cama as três horas da manhã, eu havia acordado assustada de novo, e ela veio me acalmar dizendo que Deus já tinha me perdoado, me acalmou e disse também que eu não tinha culpa do que aconteceu. Juro que isso foi o que me sustentou e me sustenta até hoje, a não desaprovação dela. Ela sentiu todo o meu pânico comigo, chorou junto e sofreu minhas dores também”.

A mãe de Ella, segundo ela mesma, era uma moça submissa e muito boa, uma tópica esposa da época que apoiaria a decisão que eu fizesse, que a apoiaria sob qualquer circunstância.

“Sabe gente, tudo isso foi muito difícil! Hoje é uma história praticamente superada, mas viver esse dia-a-dia foi assustador. Trago a tona, de certa forma, essa história para que assim eu faça a diferença no mundo. Para que outras mulheres possam se proteger e aprender com o pesadelo real vivido por mim, pela minha querida mãezinha que infelizmente me deixou na semana passada e pelas minhas duas irmãs que souberam. Digo a você, Bia… proteja aos que te são queridos porque a vida é uma só. Hoje tenho o Meu filho, com 12 anos e a minha menininha com 8. Um marido que me apoia e desde quando soube me tratou cada dia com mais carinho. Então Deus existe e me exaltou. Estou firme e forte aqui só pra testemunhar que fui uma escolhida, afinal… quantas mulheres falam disso? Hoje… apenas 6 pessoas sabem o que aconteceu comigo”.

Pessoal, essa história é real, confidenciada a mim por uma amiga querida e divido então esta experiência com todos para que vivenciem o terror e a superação de um estupro narrado pela vítima, pra você que é crítico tem um espaço de comentários ai embaixo, não hesite… deixe o seu. É isso ai, um beijo e até a próxima!  SMACK ;)

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Bianca Ludymila

Bianca Ludymila

Descobridora do mundo, escritora da vida.

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